O mutum-do-nordeste é um galliforme da família Cracidae. Conhecido também como mutum-de-alagoas, mitu e mutu.
É a ave símbolo do Estado de Alagoas.
A história da ocupação da Mata Atlântica nordestina, em especial nos estados de Pernambuco e Alagoas, começa na sua colonização no século XVI e se estende até os dias atuais. A prática do desmatamento para dar lugar a plantações de cana-de-açúcar é antiga na região, contemporânea à da caça de animais silvestres de maior porte. A partir da década de 70, um novo ciclo de desmatamento – até então estagnado – surge, desta vez mais intenso e veloz, incentivado pelo advento do programa Proálcool: fragmentos de floresta de tabuleiro e o planalto adjacente foram dizimados, eliminando enormes porções de floresta à revelia do Código Florestal Brasileiro e sem qualquer intervenção dos órgãos do governo responsáveis pela proteção dos recursos naturais.
Muitas foram as espécies prejudicadas, dentre elas, o mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), também bastante conhecido como mutum-de-alagoas. Um dia a maior ave terrestre da Mata Atlântica nordestina, ocupando grandes territórios de floresta virgem de baixas densidades. Apreciado como peça de caça, foi dizimado junto com a floresta onde vivia.
Os animais foram considerados completamente extinto na natureza há cerca de 4 décadas, principalmente devido à destruição de seu habitat para o plantio da cana-de-açúcar, além da caça desregrada na região.
Trata-se de um dos primeiros casos de extinção de uma ave em nosso País devido à intervenção humana. Restaram apenas alguns exemplares em um único aviário localizado no Rio de Janeiro (criatório Nardelli), os quais foram capturados em Alagoas, de 1976 em diante. Pedro Nardelli, que era empresário carioca, foi o grande responsável pela salvação da espécie. Em 1976, quando teve sua primeira experiência na mata, ele descobriu que o Mutum-de-alagoas estava desaparecendo e começou a se movimentar à favor da conservação do animal. O ambientalista fez até amizade com os caçadores, na esperança de que o ajudassem a encontrar os poucos exemplares restantes, além de claro, não matá-los. Em 1980, Pedro levou consigo 5 indivíduos. Eram as últimas aves vivas, e, exatamente por isso, decidiu salvá-las do completo desaparecimento, já pensando em um projeto a longo prazo. Na ocasião, teve início o processo de reprodução em cativeiro. Em 1979 a espécie chegou a contar com apenas cinco exemplares em cativeiro. Graças a um trabalho de reprodução desenvolvido pelo zoobotânico Pedro Mário Nardelli, no Rio de Janeiro, o número de indivíduos aumentou para 44. Em agosto de 1999, o criatório de Nardelli fechou por dificuldades financeiras e 24 exemplares que viviam ali foram enviados, com a autorização do Ibama, à Crax – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, localizada em Contagem, MG. Neste momento os esforços da ONG a transformaram em uma das grandes responsáveis pela perpetuação da espécie. Hoje já existem cerca de 100 aves na Crax, fundada por Roberto Azeredo. A única chance de evitar sua definitiva extinção é reproduzi-lo em cativeiro e reintroduzi-lo na natureza, em áreas protegidas. A Crax – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre é uma Ong que luta para devolver à natureza espécies que andam sumidas dos habitats originais desde 1987. Com sede em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, a organização contribui para a recuperação de ecossistemas. Dentre tantos outros méritos da associação, um merece destaque. Não fosse o empenho da Crax em salvar da extinção o mutum-de-alagoas, o animal hoje só poderia ser observado em livros acadêmicos. Infelizmente em sua área de ocorrência ( Mata Atlântica de Alagoas e Pernambuco) existem poucos remanescentes de mata e estes poucos trechos sofrem ainda grande pressão de caça pelos moradores da região. Outra grande ameaça a essa espécie é a consanguinidade, pois os exemplares restantes são parentes próximos. Artigo de JAN 2017 sobre a conservação em cativeiro e reintrodução da ave: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/01/09/a-gaiola-que-salva/
Em Setembro de 2019, finalmente pôde voltar ao seu habitat natural. A espécie teve seis exemplares reintroduzidos na Mata Atlântica de Alagoas. O feito, que foi pioneiro na América Latina, só foi concretizado graças ao estoque final de aves que ainda estavam protegidas em criadouros e zoológicos. Logo, devemos pensar duas vezes antes de subestimar os habitats controlados e seus papéis na conservação. Só se foi possível devolver as aves aos remanescentes da Mata Atlântica de Alagoas, tomando todos os cuidados necessários para que o bicho não entre na lista de animais extintos novamente. Uma força tarefa foi montada, incluindo o Ministério Público Estadual de Alagoas (MPAL), para que os animais pudessem voltar à natureza em segurança: sem risco de serem capturados por caçadores, com a população informada e ambientalmente educada, e principalmente, com medidas tomadas para que a mata estivesse realmente preservada. Antes da soltura, um grande viveiro foi construído na região com o objetivo de abrigar as aves, possibilitando à elas uma experiência de adaptação e deixando-as prontas para ganharem a liberdade. A biodiversidade ganhou um respiro graças à pessoas envolvidas nesse trabalho difícil e complexo, em especial o recentemente falecido Pedro Nardelli (texto referência de setembro de 2019), um verdadeiro ícone nesse processo. E, claro, a vários amigos que estiveram juntos, trabalhando para que tudo desse certo, dentre eles Fernando Pinto (IPMA/AL) e Luis Fábio Silveira (MZUSP). Infelizmente, Nardelli nos deixou e não poderá acompanhar seu sonho se tornando realidade. Mas uma força-tarefa igualmente dedicada e envolvida nesse projeto único, fará isso.
Seu nome científico significa: do (espanhol) pauji = termo usado pelos primeiros colonos na América tropical para definir uma variedade de grandes aves; e do (tupi) mutú, mitú, mutum = grande pássaro preto. ⇒ Grande pássaro preto.
Mede cerca de 83 centímetros de comprimento e pesa entre 2,75 a 3,0 quilogramas.
Consta que se alimenta de frutos (Eugenia sp. e Phillocantus sp.), caídos no solo, sob as fruteiras.
Em 1978, um ninho foi encontrado em árvore, a média altura, oculto pela folhagem. Em cativeiro, a postura, em geral, é de 2 ovos e a fêmea começa a botar ovos a partir dos 3 anos.
O Mutum é originário da Mata Atlântica brasileira densa, mais especificamente da região nordeste, onde vivia no chão. Por dispersar sementes, assume um papel fundamental na regeneração das florestas onde vive e age como um “guardião ambiental”.
Originalmente estava presente na Mata Atlântica de Pernambuco e de Alagoas (tabuleiro do Nordeste) até 300 metros de altitude. A espécie foi relatada por Marcgraff no século XVII e redescoberta em 1951 pelo ornitólogo Olivério M. O. Pinto em São Miguel dos Campos, estado de Alagoas. Os últimos registros em campo datam de 1978, 1984 e 1987. A destruição do seu habitat para o plantio de cana de açúcar e a caça (muito arraigada na cultura nordestina) determinaram sua extinção.